Num país fragilizado, a corrupção no futebol é tão importante quanto a corrupção na política


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O julgamento do caso Fifa pela Justiça norte-americana dá ao Brasil a oportunidade histórica de compreender por que sua democracia é tão vulnerável. Pelo que se apurou até agora, sabe-se que três grandes grupos de mídia – a brasileira Globo, a mexicana Televisa e a norte-americana Fox – são acusadas de pagar propinas para garantir direitos exclusivos de transmissão de eventos esportivos, como torneios sul-americanos e até mesmo as Copas do Mundo. No caso brasileiro, também são acusados o atual e o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol.

Alguns poderão alegar que se trata de corrupção privada, sem maiores implicações na esfera pública. Nada mais falso. Como maior paixão nacional, o futebol é o grande negócio da televisão brasileira. Monopólios nas transmissões, fomentados à base de propinas e portanto de forma anti-concorrencial, garantem audiência, poder, influência e a capacidade de manipular a opinião pública e de minar a própria democracia. Segundo delatou o empresário argentino Alejandro Burzaco, os três grupos de mídia pagaram propinas de US$ 15 milhões – o equivalente a R$ 50 milhões – para garantir a exclusividade apenas nas Copas de 2026 e 2030.

Do lado da Fifa, a corrupção era fruto de seu próprio modelo de governança. Como cada país-membro tem um voto, os cartolas que comandavam confederações, como era o caso do argentino Julio Grondona, concentravam enorme poder na entidade. Era “Dom Julio”, por exemplo, quem negociava os direitos de transmissão nas Américas – Burzaco agia como seu representante informal. Se a Fifa recebia menos dinheiro por dentro, os argentinos eram pagos por fora, em suas contas em paraísos fiscais.

Para os grupos de mídia, molhar a mão dos cartolas era um investimento de altíssimo retorno – uma vez que as verbas de patrocínio do futebol são as maiores do mercado publicitário. No caso da Globo, cada uma das seis cotas anuais custa nada menos que R$ 230 milhões e elas são ocupadas por grandes marcas: Itaú, Ambev, Vivo, Chevrolet, Johnson & Johnson e Ricardo Eletro. Ou seja: o futebol rende R$ 1,3 bilhão por ano a quem tem o direito exclusivo de transmiti-lo e se mantém como a grande receita cativo de grupos de mídia, que hoje perdem espaço com a ampliação de ofertas de notícias e também de entretenimento por outros meios.

Imaginar que se trata apenas de uma distorção do mercado privado é minimizar os efeitos da concentração midiática numa democracia. Nos protestos de que foram convocados pela Globo e levaram ao golpe de 2016, os manifestantes foram às ruas com camisas da CBF, hoje um símbolo da corrupção internacional, e promoveram a troca de uma presidente honesta pelo regime que hoje envergonha o Brasil diante do mundo. A propina investigada na corte do Brooklyn, em Nova York, explica parte dessa página infame da história nacional.