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Padeiro de raízes pomeranas de Vila Pavão é eleito o melhor do mundo com pão de torta capixaba

João Carlos Butske, filho de descendentes pomeranos do Córrego do Estevão, leva título do UIBC World Baker of the Year 2026 em Singapura; brote ancestral da família foi incluído na revista Panificação Brasileira

por Cleber Luiz Sabino
16/07/2026

 

Pavoense João Carlos Butske foi eleito melhor padeiro do mundo — Foto: Dovulgação Sindipães ES

O chef padeiro João Carlos Butske, de Nova Venécia, no Noroeste do Espírito Santo, foi eleito o melhor padeiro do mundo no UIBC World Baker of the Year 2026, principal reconhecimento internacional concedido a profissionais da panificação. O resultado foi anunciado na segunda-feira (14), em Singapura, durante um evento promovido pela União Internacional de Padeiros e Confeiteiros (UIBC).

Raízes pomeranas em Vila Pavão


Filho de descendentes de pomeranos de Vila Pavão, João Carlos nasceu no Córrego do Estevão, em Vila Pavão, e iniciou sua trajetória na panificação em 1998, na Padaria Salute, em Nova Venécia. Ao longo dos anos, desenvolveu uma paixão pelo ofício e se tornou um dos nomes mais respeitados do setor no Brasil.

Sua dedicação às raízes pomeranas o levou a pesquisar a origem e a importância cultural do brote, buscando aprimorar a receita original de sua avó. Através de João, a receita ancestral do brote de Vila Pavão foi incluída na revista Panificação Brasileira, e o produto participou de concursos nacionais e internacionais.

“Apesar de ter adaptado a receita, sinto a necessidade de voltar às minhas raízes e resgatar a essência do brote. Quero que essa receita represente não apenas o meu trabalho, mas também a rica história da comunidade pomerana de Vila Pavão”, afirma João Carlos.

João Carlos Butske mostra o pão de torta capixaba, feito no Espírito Santo — Foto: João Carlos Butske/ Arquivo Pessoal

A receita campeã

A receita que deu ao profissional o título mundial foi um pão de fermentação natural que imita uma panela de barro com a tradicional torta capixaba como recheio — uma criação que carrega a cultura capixaba para o maior palco da panificação mundial.

O preparo é feito em etapas. Primeiro, o pão: rústico, de fermentação natural, com processo que leva até 72 horas. Depois, a torta capixaba: preparada separadamente. Só então os dois se encontram.

“Eu preparo o pão e a torta separadamente. Depois que o pão está assado, a gente abre e coloca o recheio dentro”, explicou o profissional.

Depois de recheado, o pão volta ao forno para finalizar. O formato também é pensado para reforçar a ideia original.

“A ideia é que o pão lembre uma panela de barro”, disse.

Segundo o padeiro, a proposta não é substituir a forma tradicional de preparo.

“A intenção não é tirar o encanto da panela de barro, mas mostrar que é possível levar a torta capixaba para a panificação, com criatividade e inovação”, afirmou.

Segundo brasileiro no pódio

Com a conquista, João Carlos se tornou o segundo brasileiro a receber o prêmio internacional. Antes dele, apenas o paulista Rogério Shimura havia sido eleito, em 2019.

Após o anúncio do prêmio, João Carlos comemorou a conquista nas redes sociais e agradeceu o apoio recebido.

“Melhor padeiro do ano! Obrigado a cada um que acompanhou, torceu e acreditou. Vocês fazem parte dessa conquista. Representar o Brasil e o Espírito Santo no maior palco da panificação mundial é algo que vou carregar para sempre no coração”, escreveu.

João Carlos Butske, natural do Espírito Santo, foi eleito o melhor padeiro das Américas e o 4º melhor do mundo — Foto: Divulgação/ Sebrae-ES

Trajetória de premiações

Essa não é a primeira premiação internacional de João. Em 2025, ele já havia sido eleito melhor padeiro das Américas pela Confederação Interamericana da Indústria do Pão (Cipan) e o 4º melhor padeiro do mundo.

De entregador de pão a melhor do mundo

A história de João na panificação começou em 1999. Ainda jovem, ele precisou escolher entre trabalhar em uma cerâmica ou em uma padaria.

“Na época, pensei que o trabalho na padaria seria menos pesado, e foi assim que tudo começou”, relembrou.

O primeiro trabalho foi simples: entregava pão de bicicleta, limpava o espaço e ajudava na rotina da produção. Com o tempo, foi aprendendo o ofício.

“No início, não era o que eu queria, mas com o tempo fui me identificando e acabei me apaixonando pela profissão”, contou.

Mesmo com dificuldades financeiras, decidiu investir nos estudos. Chegou a comprometer praticamente todo o salário com a faculdade de Administração e, muitas vezes, fazia o trajeto a pé.

“Meu salário na época era de 270 reais e pagava 267 reais de mensalidade, mas eu não enxergava outra oportunidade de crescimento se não fosse estudando. Muitas vezes eu saía da padaria e ia para faculdade caminhando, pois não tinha dinheiro para pagar o ônibus, e algumas vezes, quando acabava a aula, voltava direto pra padaria para trabalhar”, lembrou.

Hoje, é sócio e gerente de produção da padaria onde começou e acumula prêmios, cursos e participação em eventos do setor.

Três dias para fazer um pão

O pão usado na receita segue o processo de fermentação natural, técnica que exige tempo e precisão.

Ele começa a preparar a massa na quarta-feira, modela na quinta e assa na sexta, dia em que também realiza um festival de pães.

“É um processo que exige paciência. Tem que gostar do que faz”, afirmou.

Tradição dentro do pão

Além do pão com torta capixaba, João também desenvolve outros produtos inspirados em elementos locais, como o café, buscando valorizar referências do estado dentro da panificação.

A proposta, segundo ele, é mostrar que tradição e criatividade podem caminhar juntas. Um outro exemplo é o pão “Rosa das Montanhas”, que é aromatizado com café e laranja.

“É um pão que mistura as farinhas branca, integral, de centeio e de malte. Ele é aromatizado com suco de laranja, café e mel. Gosto muito de valorizar o nosso estado e o Rosa das Montanhas remete aos produtores de café. É um pão saboroso, aromatizado e com um cítrico que dá o toque especial”, explicou.

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