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Pomitafro: de uma festa cultural a um movimento permanente de valorização dos povos

Nascida em Vila Pavão como uma celebração das culturas pomerana, italiana e afro-brasileira, a Pomitafro ultrapassou fronteiras, inspirou grupos e festas em diferentes cidades e consolidou-se como um dos mais importantes movimentos de valorização cultural do Espírito Santo.

por Redação
02/09/2026
Primeira apresentação do Grupo Pomerano em 15 de maio de 1988 no CEIER em um evento do Dia das Mães

O Grupo Folclórico Pomerano de Vila Pavão e a Festa Pomitafro surgiram, respectivamente, em 1988 e 1989, marcando o início de um dos mais importantes movimentos de valorização cultural do Norte do Espírito Santo.

O Grupo Folclórico Pomerano de Vila Pavão foi o primeiro grupo de danças pomeranas da região Norte do Estado, tornando-se referência na preservação e na divulgação das tradições trazidas pelos antepassados pomeranos.

No ano seguinte, em 1989, nasceu a Pomitafro, criada inicialmente como um espaço para que o Grupo Folclórico Pomerano e os grupos representativos das culturas italiana e afro-brasileira pudessem apresentar e preservar suas tradições.


A nova celebração surgiu em substituição à antiga Festa Caipira, realizada anualmente CIER, atualmente CEIER. Embora fosse uma festividade tradicional, a proposta não representava diretamente a identidade dos principais povos colonizadores de Vila Pavão: pomeranos, italianos e afro-brasileiros.

Foi assim que nasceu a Pomitafro.

A I Pomitafro, realizada em 1989, causou impacto não apenas em Vila Pavão, mas em toda a região Norte do Espírito Santo. Com o passar dos anos, a festa ampliou sua visibilidade e passou a ser reconhecida também em outras regiões do Estado e do Brasil.

Todos os anos, os grupos pomerano, italiano e afro-brasileiro passaram a ter seu espaço garantido na programação. Ao mesmo tempo, outros povos e grupos culturais também passaram a ser convidados a participar, fortalecendo a proposta de integração e respeito à diversidade.

A troca cultural também aconteceu fora de Vila Pavão. Os grupos folclóricos do município passaram a receber convites para participar de eventos em diversas cidades, levando suas tradições para diferentes comunidades.

Com o tempo, a Pomitafro deixou de ser apenas uma festa anual e passou a ser reconhecida como um verdadeiro movimento cultural permanente. Os grupos folclóricos continuaram suas atividades durante todo o ano, participando de apresentações, encontros e eventos, contribuindo continuamente para a valorização da cultura capixaba.

O primeiro cartaz

Cultura que ultrapassa fronteiras

Além das apresentações em diversos municípios e eventos permanentes, os grupos culturais de Vila Pavão passaram a ser convidados por comunidades luteranas, prefeituras e lideranças locais para colaborar na formação de novos grupos folclóricos e na criação de festas culturais em outras cidades.

Dessa forma, a experiência construída em Vila Pavão ajudou a inspirar iniciativas de preservação cultural em diferentes regiões do Espírito Santo e até mesmo em outros estados brasileiros.

Prêmio na Suíça

A proposta de harmonia e integração defendida pela Pomitafro também ultrapassou as fronteiras brasileiras.

A festa foi indicada por um grupo de jovens católicos da Alemanha para concorrer a um prêmio destinado a uma entidade na Suíça. A indicação chamava atenção para a mensagem transmitida por uma pequena cidade do Norte do Espírito Santo.

Enquanto grande parte do mundo enfrenta conflitos, muitos deles de origem étnica e racial, Vila Pavão apresentava uma proposta baseada justamente no caminho contrário: a harmonia, a convivência e a união entre os povos.

O prêmio oferecia, na época, o equivalente a 50 mil dólares. A Pomitafro não conquistou a premiação, mas a simples indicação já representou um importante reconhecimento de sua proposta e de sua contribuição para a promoção da paz e do respeito entre diferentes culturas.

A experiência reforçou a convicção de que, mesmo a partir de uma pequena cidade do interior brasileiro, é possível contribuir, de alguma forma, para uma mensagem de convivência e paz mundial.

Grupo Folclórico e Pomerfest de Espigão do Oeste (RO)

Uma das primeiras experiências de expansão dessa influência cultural aconteceu em Espigão do Oeste, em Rondônia, município que recebeu muitos migrantes oriundos de Vila Pavão entre os anos de 1969 e 2000.

Em 1997, o casal Edson Foerste e Ornélia Xavier, integrantes do Grupo de Danças de Vila Pavão, foi enviado ao município para ensinar e ensaiar danças pomeranas. A iniciativa foi resultado de uma parceria entre as prefeituras de Vila Pavão e Espigão do Oeste.

Mais de 30 jovens participaram das atividades.

Os representantes de Vila Pavão permaneceram em Espigão do Oeste entre os dias 22 de outubro e 1º de novembro de 1997. A iniciativa contou com a participação e o apoio de lideranças locais, entre elas a professora Helena Lúcia, Gelson Linhares, o então prefeito Arlindo Detmann, além de Martino Tesch e Evaldino Kellert.

Como ocorreu em outras comunidades que passaram a valorizar suas origens, a formação do grupo também contribuiu para o surgimento de uma festa típica.

Grupo Folclórico Pomerano de Espigão do Oeste , RO

A Pomerfest, Festa Pomerana de Espigão do Oeste tornou-se uma importante celebração da cultura local. Em 2026, o município realizou a sua 14ª edição do evento.

Outro nome importante nesse processo é o do pesquisador pomerano Jorge Kuster Jacob, que exerceu grande influência na valorização da identidade cultural da região ao realizar pesquisas e publicar dois livros sobre Espigão do Oeste.

Jorge é também o autor da denominação “Espigão do Oeste, a Pomerânia Amazônica”, referência à forte presença da cultura pomerana naquela região, considerada uma das comunidades com maior concentração de descendentes pomeranos no Norte do país.

 

Festa Itaguaçuense das Culturas (FITAC)

Outra celebração cultural que surgiu inspirada na experiência de Vila Pavão foi a Festa Itaguaçuense das Culturas (FITAC), realizada em Itaguaçu, no Espírito Santo.

A ideia começou a ganhar força depois que o ex-prefeito de Vila Pavão e pastor Erno Júlio Dieter, que na época atuava e residia em Itaguaçu, compartilhou com moradores do município a experiência da Pomitafro.

Entre as pessoas envolvidas nas primeiras discussões estava o então diretor de Cultura de Itaguaçu, Altamiro José Fernandes, conhecido como “Sirré”.

A proposta chegou também à então secretária de Educação e Cultura, Sônia Zanette Basílio, e ao prefeito Romário Basílio.

Após diversas reuniões, especialmente com profissionais da área da Educação, surgiu a decisão de criar uma festa que homenageasse diferentes povos formadores da identidade do município, entre eles portugueses, indígenas, negros, pomeranos, alemães e italianos.

Entre os destaques da FITAC estão o desfile cultural, a escolha das rainhas, a gastronomia típica, a participação de tratores e máquinas tradicionais, além de apresentações e shows musicais.

Em 2026, Itaguaçu realizou a 22ª edição da FITAC, consolidando o evento como uma importante celebração da diversidade cultural do município.

Vila Neitzel (Itueta/MG), a maior comunidade pomerana de Minas Gerais.

Festa Pomerana de Vila Neitzel, em Itueta (MG)

Outra comunidade influenciada pela experiência cultural de Vila Pavão foi a comunidade pomerana de Vila Neitzel, no município de Itueta, em Minas Gerais.

Uma das lideranças envolvidas nesse processo foi o pomerano e ex-prefeito de Itueta Rúdio Pieper.

Durante visitas a Vila Pavão e também à comunidade de Laginha, distrito de Pancas, surgiu a ideia de propor a criação de um grupo de danças pomeranas e de um evento cultural na comunidade considerada uma das mais pomeranas do Estado de Minas Gerais.

Rúdio Pieper convidou o Grupo de Danças Folclóricas Pomeranas Edelstein, de Laginha, para ensinar algumas das danças tradicionais à comunidade.

A iniciativa ajudou a fortalecer a identidade cultural local e contribuiu para a criação da Festa Pomerana, Pomerfest de Vila Neitzel.

A primeira edição da festa foi realizada em 2015. Em 2026, o evento chegou à sua 12ª edição, reunindo danças típicas, desfiles de rua, gastronomia pomerana, feiras da agricultura e apresentações de músicas tradicionais.

 

Festa Pomerana de Jaguaré/ES

Grupo e Festa Pomerana de Jaguaré (ES)

A influência da cultura pomerana de Vila Pavão também chegou ao município de Jaguaré, no Norte do Espírito Santo.

A 1ª Festa da Cultura Pomerana, realizada na comunidade de São João do Estivado, foi organizada pelo Grupo de Dança Kulter Pomer e contou com a participação da Secretaria de Estado da Cultura (Secult-ES), por meio de editais de incentivo cultural.

A iniciativa teve como lideranças Eliandro Hach Back e Marilena Brandenburg.

O Grupo Folclórico Pomerano de Vila Pavão foi convidado para ensinar as primeiras danças pomeranas no município, contribuindo diretamente para a formação e o fortalecimento da iniciativa.

Em 2025, o grupo participou desse processo de ensino e, posteriormente, também foi convidado a participar da 2ª Festa Pomerana.

Outras influências em Vila Pavão

A própria Pomitafro também exerceu influência na formação de outros grupos de danças folclóricas dentro do município de Vila Pavão.

Um deles foi o Grupo Folclórico Pomerano do Rio do XV. Embora o grupo não esteja mais em atividade, sua existência deixou uma importante contribuição para a formação cultural da comunidade.

Outro grupo que permanece ativo está ligado à Escola Arthur Pagung, na comunidade de Praça Rica. Trata-se do Grupo de Danças Praça Rica, formado principalmente por crianças e estudantes da escola.

A participação das novas gerações é fundamental para garantir a continuidade das tradições e para despertar, desde cedo, o interesse pela cultura e pela história das comunidades.

A importância das danças na formação cidadã

As danças pomeranas, italianas, afro-brasileiras e as manifestações de outros grupos étnicos possuem grande importância na formação de seus integrantes.

Além de preservar tradições e conhecimentos transmitidos entre gerações, a prática das danças contribui para o desenvolvimento da disciplina, da convivência, da autoestima, do senso de pertencimento e da valorização da própria identidade cultural.

Ao aprender técnicas, ritmos e coreografias, os participantes também ampliam sua percepção artística. Essa experiência pode contribuir, inclusive, para outras formas de dança e manifestações populares, tornando o ato de dançar ainda mais rico e expressivo.

Cultura o ano inteiro

Ao idealizar a Pomitafro, Vila Pavão também apresentou uma proposta de manutenção de grupos culturais permanentes.

Isso permitiu que a cultura não ficasse restrita a apenas alguns dias de festa. Durante todo o ano, os grupos passaram a representar suas comunidades em apresentações, encontros e eventos realizados dentro e fora do município.

A cultura pomerana, italiana e afro-brasileira — entre tantas outras manifestações que podem integrar esse movimento — continua se aperfeiçoando e se renovando por meio de seus participantes.

Essa presença permanente permite que o município ofereça cultura à sua própria comunidade e também compartilhe suas tradições com outros lugares.

A cultura também possui um importante papel educativo. Mesmo quando uma pessoa tem a oportunidade de assistir a uma apresentação apenas uma vez por ano, ela pode conhecer, apreciar e assimilar aspectos da rica diversidade cultural existente na sociedade.

Outras culturas também têm espaço

A existência de três grupos étnicos representados no próprio nome POMITAFRO não significa que outros povos e culturas não possam participar.

A proposta sempre foi de integração.

Ao longo dos anos, já participaram da festa grupos representando diferentes culturas, entre elas holandeses, poloneses, indígenas, ciganos, japoneses e povos latino-americanos, entre outros.

Também já houve discussões e ideias relacionadas à participação de outros grupos culturais. Basta que existam interesse, iniciativa e pessoas dispostas a organizar e preservar essas manifestações.

A Pomitafro pode continuar sendo um espaço de encontro, diálogo e valorização das diferentes identidades que formam a sociedade brasileira.

É fundamental, porém, que as manifestações culturais estejam comprometidas com valores de respeito, convivência, dignidade humana e não violência.

Um movimento de desenvolvimento cultural

A Pomitafro nasceu com a proposta de contribuir para o desenvolvimento local e sustentável por meio da valorização das pessoas, da história e das tradições.

A cultura está presente em tudo aquilo que o ser humano cria, preserva e transmite. No entanto, toda sociedade também precisa refletir sobre seus valores, suas prioridades e sobre o tipo de cultura que deseja incentivar para as futuras gerações.

Ao longo de décadas, a Pomitafro demonstrou que a cultura pode ser muito mais do que entretenimento.

Ela pode ser instrumento de educação, integração, pertencimento, desenvolvimento, memória e construção da paz.

O que começou como uma festa para valorizar as raízes pomeranas, italianas e afro-brasileiras de Vila Pavão transformou-se em um movimento cultural permanente, capaz de inspirar grupos, comunidades e eventos em diferentes regiões.

Mais do que preservar o passado, a Pomitafro continua ajudando a construir o presente e o futuro cultural de Vila Pavão.

Porque a cultura é, acima de tudo, a alma de um povo.

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