Ponto de vista – por Jorge Kuster Jacob
No ano de 1987, Vila Pavão era um distrito de Nova Venécia. Eu tinha acabado de chegar do Rio Grande do Sul, onde havia estudado por 12 anos e me formado em sociologia. Minha tese de conclusão da faculdade foi “A Imigração e Aspectos da Cultura Pomerana no Espírito Santo”, que viraria o primeiro livro sobre os pomeranos no Brasil, em 1992.
Uma das poucas atividades que a juventude de Vila Pavão tinha na época era o campo de futebol e a participação na igreja. Eu achava que essa juventude merecia muito mais e algo teria que ser feito para isso acontecer.
Na ocasião, eu participava do Grupo de Jovens Luteranos da Igrejona. Em conversa com os líderes do grupo, na época Valdecir Berger e Leonira Ramlow, apresentei a ideia de resgatar e valorizar a cultura pomerana através da dança. A palavra dança não caiu muito bem para os integrantes da diretoria da igrejona. Assim, na reunião para apresentação da ideia, recebemos um sonoro não. “Igreja não é lugar de dança”, disseram e nem sequer ouviram nossa argumentação. Simplesmente reprimiram a iniciativa. Mas nosso grupo não desistiu.
Todo movimento cultural sempre tem sua oposição ou por proposta inovadora ou por falta de conhecimento da sociedade.
Não demorou muito, recebemos uma oferta do Sr. Valdemiro Foerste (im memorian) para os ensaios no terraço de sua casa. Assim a juventude pomerana tirou momentaneamente o nome Evangélico e Luterano do grupo e foi fazer história em Vila Pavão.
O grupo foi convidado para fazer a sua primeira apresentação no dia das mães no Centro Integrado de Educação Rural- CIER. O convite foi feito por mim que acabava de assumir a direção daquela escola. O sucesso e a inovação do grupo de danças foi tanta que recebeu convites para apresentação em vários eventos, entre elas, a Festa da Colheita da Igrejona.
O convite foi uma espécie de retorno ao sagrado. Os integrantes do grupo que se sentiam expulsos da igreja se sentiram aliviados. Agora sim, eles estavam de volta à igreja.
A Pomitafro
A Fundação do grupo deu início a um movimento cultural, quando idealizamos com os professores do CIER a criação de um evento que de certa forma desse continuidade a ideia do Grupo Pomerano e as outras duas etnias colonizadoras do então distrito. Uma festa típica deveria surgir para ser o palco destes.
Observando a história dos alunos e famílias do CIER percebemos que a maioria era pomerana, italiana e afro. Surgia assim uma festa, um evento: a Pomitafro. A ideia também não foi bem aceita na própria escola, uma vez que lá se realizava a festa caipira que fazia muito sucesso. Mas o argumento que a cultura precisava resgatar e valorizar a cultura e a história local prevaleceu.
Assim sendo, a língua, a dança, a culinária, a música, o artesanato, a religiosidade, o folclore, o artesanato, a história, entre outras manifestações culturais dos verdadeiros colonizadores deveriam fazer parte desse evento cultural e não caipiras que eram na verdade do interior de São Paulo, além de ser um deboche dos agricultores familiares estavam na verdade fora de contexto.
A Pomitafro assim surpreendia a cada ano, a cada evento. Na verdade, se tornou um movimento cultural. Inicialmente desafiou e conseguiu fazer com que além dos pomeranos, os italianos e os afro de Vila Pavão também se organizassem e assim fundaram seus grupos de danças.
A Pomitafro que era para ser apenas uma festa escolar a cada ano crescia na sua proposta de trazer grupos de danças não só de Vila Pavão, mas de toda região norte do Estado. Chegou a ser por três anos o maior movimento cultural não só do município de Nova Venécia como do norte do Estado.
A emancipação política
Assim a agricultura familiar e a diversidade cultural de Vila Pavão eram fundamentais no seu processo de emancipação política de Nova Venécia. Foi assim que em 1990, um plebiscito libertava Córrego Grande (Vila Pavão) de Nova Venécia. Surgia um novo município no norte do Estado que além de levar diversos professores do CIER em 1992 para fazer parte da administração municipal também levava a Pomitafro como a principal festa do Município. Ela deixa de ser escolar e passa a ser municipal, regional, estadual.
Dessa forma, a Pomitafro passou a ser coordenada pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura (1992 a 2004) e desde 1995, Vila Pavão um dos menores municípios do Espírito Santo passa a ser um dos poucos a ter uma Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.
Reconhecimento
A Pomitafro passa a ser um dos principais movimentos culturais do Estado, do país e até internacional quando em 1997, um grupo de jovens da Alemanha indicou a Pomitafro para receber um prêmio da Igreja Católica da Suécia que premiava com dinheiro eventos ou movimentos que promovessem a integração étnica de combate ao racismo e a exclusão social.
Hoje a Pomitafro tem muita repercussão e divulga muito a nossa cultura. Centenas de jovens passaram pelos nossos grupos de dança. Atualmente, os grupos de danças folclóricas de Vila Pavão são chamados para representar a nossa cultura em outros municípios capixabas e até fora do estado.
Essa juventude não só dança, mas precisa estudar a nossa cultura. Precisa saber por que ele dança. Assim virar cidadão. Sujeito da sua e da nossa história. A conscientização cultural que essa juventude tem faz com que participem mais da nossa sociedade. Muitos poderiam estar em outras atividades degradantes. Resgatar a nossa cultura é incluir a juventude num mundo com responsabilidade e assim contribuir para um mundo mais justo e humano.





