Todo Carnaval tem seu fim. A festa mais popular do Brasil se despede hoje, 18 de fevereiro, e dá início a um dos períodos mais significativos do calendário cristão: a Quaresma. Vivida ao longo de cerca de quarenta dias, ela começa todos os anos na Quarta-feira de Cinzas e se estende até a Quinta-feira Santa, sendo tradicionalmente marcada, entre os católicos, por práticas de oração, jejum e caridade.
O que é a quaresma?
O número quarenta carrega forte simbolismo bíblico: representa tempo de prova, preparação e amadurecimento. Segundo a tradição cristã, foi durante quarenta dias que Jesus permaneceu no deserto em oração e jejum. Inspirados nesse exemplo, os fiéis são chamados a viver esse período com maior consciência de suas escolhas, atitudes e responsabilidades.
Isso não significa, porém, que não existam orientações formais. O Direito Canônico da Igreja Católica estabelece algumas normas mínimas para a vivência da Quaresma, especialmente ligadas às práticas penitenciais. Entre elas estão o jejum obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, indicado para fiéis entre 18 e 59 anos, e a abstinência de carne às sextas-feiras da Quaresma, obrigatória a partir dos 14 anos. Pessoas doentes, idosas, gestantes, lactantes ou em situações específicas são dispensadas dessas práticas. Essas regras, no entanto, são compreendidas hoje como um ponto de partida e não como a totalidade do sentido quaresmal.
O que predomina na vivência contemporânea da Quaresma é uma visão mais ampla, que entende essas normas como sinais pedagógicos, inseridos em um caminho maior de reflexão, conscientização e preparação para a Páscoa, marcada pela ressurreição de Cristo após sua morte na cruz.
Quais são as orientações para a Quaresma?
A Igreja Católica indica três práticas centrais para a vivência da Quaresma: jejum, oração e esmola. Elas funcionam como caminhos espirituais que conduzem à conversão, palavra-chave do período, que significa mudança de atitude e de direção.
O jejum, muitas vezes associado apenas à alimentação, tem um sentido mais amplo. Ele pode envolver a redução de excessos, a renúncia a vícios ou hábitos prejudiciais e a revisão da relação com o consumo. A proposta não é o sacrifício vazio, mas a consciência.
A oração, por sua vez, convida ao recolhimento e à escuta. É um tempo de maior proximidade com a Palavra de Deus, de silêncio interior e de reflexão. Em um cotidiano marcado pela pressa, a Quaresma sugere desacelerar para ouvir mais: a si mesmo, ao outro e à fé.
Já a esmola, entendida como caridade, é o gesto concreto que dá sentido às outras práticas. A ideia é que toda renúncia gere partilha. Abrir mão de algo deve resultar em benefício para alguém, especialmente para quem vive em situação de vulnerabilidade.
Segundo o padre Clésio dos Santos, da Reitoria do Carmo, em Vitória (ES), esses três pilares precisam caminhar juntos para que a Quaresma tenha sentido real.
“Esse período vem com jejum, esmola e oração. Esses três caminhos nos levam à conversão. Conversão é mudança de direção, é refletir o espírito da Quaresma, que é recolhimento.”
Jejum: muito além de não comer carne
Um dos costumes mais conhecidos da Quaresma é a abstinência de carne, especialmente às sextas-feiras. Apesar de ser uma orientação tradicional da Igreja, o padre Clésio reforça que o sentido do jejum não está no alimento em si, mas no sentido que ele traz.
“Historicamente, a carne era considerada um alimento mais festivo e associado à celebração. Ao abrir mão dela, o fiel faz um gesto simbólico de simplicidade e penitência, em memória do sofrimento de Jesus Cristo. Então, o verdadeiro sentido não é simplesmente não comer carne, mas lembrar do porquê da ação”, reflete.



