A emancipação política de Vila Pavão representa a força da união de um povo que acreditou em seu potencial. Lideranças comunitárias, entidades civis, escolas, igrejas e moradores somaram esforços em uma ampla mobilização popular que culminou na conquista da autonomia do então distrito de Córrego Grande, dando origem ao município e inaugurando uma nova etapa de desenvolvimento e oportunidades para a comunidade.

O primeiro passo oficial rumo à emancipação ocorreu em 1987, quando o professor Hélio Timm e o escrivão Alfredo Vignatti encaminharam um abaixo-assinado com 107 assinaturas solicitando a criação do novo município. Na época, porém, o maior obstáculo era o cumprimento das exigências legais relacionadas à arrecadação estadual. Enquanto a legislação determinava que o distrito alcançasse um índice mínimo de 0,005 da arrecadação do Espírito Santo, Vila Pavão registrava apenas 0,001.

Diante desse desafio, nasceu, em 1988, o Grupo EmanciPavão, idealizado pelo vereador Antônio Teixeira Maria (PT) em conjunto com o Centro Integrado de Educação Rural (CIER). O grupo reunia-se semanalmente na então Escola Córrego Grande, atual Escola Municipal Ana Portela de Sá, e organizou uma ampla mobilização comunitária em defesa da emancipação.
Além do trabalho de conscientização junto ao comércio para emissão de notas fiscais em nome de Vila Pavão, o movimento promoveu mutirões para melhorias em ruas e estradas, realizou palestras com os prefeitos José Rochinha, de Águia Branca, e Helmar Potratz, de Santa Maria de Jetibá, e contou com assessoria jurídica do advogado Florentino Jacobsen Krause. O CIER teve papel fundamental na elaboração da documentação necessária para o processo.
O esforço coletivo produziu resultados expressivos. Em 1989, o índice de arrecadação do distrito subiu para 0,003, enquanto a Assembleia Legislativa do Espírito Santo aprovava uma alteração na legislação, reduzindo a exigência mínima de 0,005 para 0,0025. Com isso, Vila Pavão passou a atender aos requisitos legais para a emancipação. Mesmo diante de dificuldades e até ameaças sofridas por integrantes do movimento, a luta não foi interrompida.

Restava, então, a realização do plebiscito. A consulta popular aconteceu em 1º de julho de 1990, em um dia marcado pelo frio e pela chuva, fatores que dificultaram o deslocamento de muitos moradores da zona rural. Dos 3.837 eleitores aptos, 2.290 compareceram às urnas. O resultado foi amplamente favorável à emancipação: 2.123 votos pelo “sim”, 108 pelo “não”, além de 23 votos nulos e 27 em branco, distribuídos em 18 urnas.

Pela expressiva participação popular, o primeiro prefeito eleito, Erno Júlio Dieter, por sugestão da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, instituiu o 1º de julho como o Dia da Cidade, em homenagem ao protagonismo da população na conquista da autonomia política.
Na época, o distrito possuía aproximadamente 12 mil habitantes, incluindo a comunidade de São Luiz do Quinze, que posteriormente permaneceu pertencendo ao município de Nova Venécia por questões geográficas.
A emancipação foi oficialmente consolidada em 11 de janeiro de 1992, quando o governador Max Mauro sancionou, em praça pública, a Lei Estadual nº 4.517, criando oficialmente o município de Vila Pavão. A cerimônia reuniu centenas de moradores em um momento histórico que permanece vivo na memória da população.

Diversos segmentos da sociedade tiveram participação decisiva nessa conquista, entre eles as escolas CIER e Ana Portela de Sá, as igrejas Luterana, Católica e Assembleia de Deus, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, além dos grêmios estudantis GESC e GEAR, que contribuíram para mobilizar a juventude e fortalecer o movimento emancipacionista.

Com a criação do novo município, Nova Venécia perdeu cerca de 32% de seu território, enquanto Vila Pavão iniciou sua trajetória administrativa com aproximadamente 10 mil habitantes. Naquele período, destacaram-se ainda as lideranças políticas de Valter De Prá, prefeito de Nova Venécia, do deputado estadual Salvador Bonomo, além de Adelson Antônio Salvador e Antônio Moreira, que também colaboraram para o processo.
A representatividade política do distrito também crescia. Na última legislatura antes da emancipação, Vila Pavão elegeu cinco vereadores para a Câmara de Nova Venécia: Antônio Teixeira Maria, Lorentino Foerste, Eraldino Jann Tesch, Ercílio da Fonseca e Theodoro Emílio Braun. Anteriormente, o distrito conseguia eleger, no máximo, dois representantes.
Mais de três décadas depois, a história da emancipação política de Vila Pavão permanece como um exemplo de união, perseverança e participação popular. A conquista da autonomia administrativa tornou-se um marco na construção da identidade do município e no fortalecimento de seu desenvolvimento econômico, social e cultural.
Texto: Jorge Kuster Jacob – Fotos: arquivo pessoal Jorge Kuster Jacob.



