Ser a primeira árbitra de futebol do Brasil numa época em que o esporte era proibido para as mulheres no país. Ou a primeira cacique indígena num ambiente dominado por homens. Ou ainda a primeira bailarina trans do Theatro Municipal de São Paulo.
Para marcar o Dia das Mulheres, celebrado nesta terça-feira, 8 de março, o g1 publica uma série de reportagens com as histórias de oito mulheres pioneiras em diferentes áreas.
Em comum, elas têm resiliência e coragem para persistir e seguir em frente, apesar das adversidades de uma sociedade patriarcal e desigual como a brasileira. Suas conquistas e trajetórias de vida servem de inspiração e exemplo para as gerações seguintes.
Confira a história dessas oito mulheres:
Machismo no futebol

Isso, porém, nunca a afastou dos campos – nem mesmo nos tempos da ditadura militar. Ela organizava partidas entre grupos de mulheres, chegando até a ser presa por isso. Depois, passou a cobrir jogos como jornalista. Mas gostava mesmo era de apitar. Daí para fazer um curso de arbitragem, foi um pulo.
Valendo-se de uma brecha na lei que dizia que as mulheres não podiam praticar o futebol, mas não falava nada sobre apitar partidas, ela o convenceu a determinar que fosse expedido o diploma. A proibição para mulheres jogarem futebol só veio a cair em 1979.
“Era tanta a minha implicância [sobre] por que a mulher não podia jogar futebol, que eu creio que eu influenciei um pouco na liberação do futebol para mulher”, diz Lea.
Leia a história completa dela aqui.
Luta no campo

A história do casal foi retratada no documentário “Cabra marcado para morrer” e ganhou projeção nacional. Após a morte de João Pedro em razão do conflito agrário, Elizabeth assumiu o seu lugar e se tornou a primeira mulher a liderar uma liga camponesa.
Por um longo período, precisou mudar de estado e até de nome. Com exceção de um dos filhos que seguiu com ela, os outros dez foram divididos e acabaram ficando com diferentes parentes – essa separação marcaria a vida da ativista de forma profunda.
Apesar de todas as dificuldades, Elizabeth seguiu, por toda a sua vida, reivindicando a reforma agrária e participando de movimentos e articulações políticas. Hoje, aos 97 anos, ainda é fonte de inspiração na luta no campo.
Liderança indígena

O processo teve início há mais de 25 anos e está longe do fim – faltam ainda alguns procedimentos até a aldeia receber a homologação definitiva da terra, mas já representa um grande avanço. Cacique Pequena também lutou por outras melhorias, como o fornecimento de energia elétrica e a construção de uma escola na tribo.
“Eu fiz o caminho para as mulheres do Brasil”, diz Cacique Pequena.
Artes

Desde pequena, Márcia Dailyn sabia o que queria: ser artista. Precisou vencer preconceitos e há 26 anos se tornou a primeira bailarina trans do Theatro Municipal de São Paulo.
Ainda jovem, deixou a cidade de Jales, a mais de 580 quilômetros de São Paulo, e seguiu seu sonho: se inscreveu para participar da seleção para a famosa Escola Municipal de Bailado, como era chamado o corpo de balé do tradicional teatro naquela época. Aprovada na audição, mudou-se para a capital paulista e, aos 17 anos, estreava como bailarina.
Depois, Márcia estudou ainda por dois anos na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville (SC), e teve a oportunidade de dividir o palco com grandes estrelas, como Ana Botafogo.
“Hoje, eu olho tudo o que eu sofri, tudo o que eu passei, mas não com tristeza. É um degrau que a cada dia eu ia subindo, e assim é a vida”, afirma.
Representatividade

O caminho que levou a essas conquistas profissionais está ligado à trajetória pessoal dela e na percepção da própria identidade e de como é representada na sociedade – sobretudo, no mercado de trabalho publicitário.
Em 2017, quando procurava fotos de pessoas para inserir em campanhas, Joana percebeu que quase nunca encontrava imagens de mulheres negras, principalmente que aparentassem ser genuinamente brasileiras. Surgiu a partir daí a ideia do banco de imagens.
Literatura
Maria Firmina dos Reis: a mulher negra maranhense que foi pioneira na literatura brasileira — Foto: Divulgação
Ela foi a primeira mulher a ser aprovada em um concurso público no Maranhão para o cargo de professora primária. Escreveu o primeiro livro brasileiro com temática abolicionista. Foi a primeira professora a fundar uma sala de aula mista, de meninos e meninas, no Maranhão, algo inadmissível para a época. E é considerada aprimeira escritora brasileira.
Apesar de tantas conquistas, até meados do século 20, a biografia dela ainda era relativamente desconhecida e só foi ganhar visibilidade na década de 1960, quando o seu romance “Úrsula” voltou a ser reimpresso e estudado nas universidades nacionais. Publicada em 1859, a obra se desenvolve a partir do ponto de vista dos escravizados.
Combate ao assédio
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“Eu decidi lutar contra esse machismo, contra as consequências do machismo, do patriarcado, que é justamente o assédio, e fazer a minha voz ser ouvida. Aproveitar e utilizar o meu local de ser um oficial superior de poder falar por muitas que não podem, porque, muitas vezes, são perseguidas e têm medo”, afirma a tenente-coronel.
Atualmente, ela integra a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AL) e preside a Comissão Mulher Segura. Seu papel é desenvolver políticas públicas de prevenção e combate à violência contra a mulher, além acolher e prestar assistência às vítimas que, em geral, silenciam diante do medo de sofrer represália e da vergonha.
Ciência
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Ana Paula Salles Moura Fernandes trabalha no Centro de Tecnologia em Vacinas e Diagnósticos (CTVacinas) da Universidade Federal de Minas Gerais e coordena a área de diagnóstico de Covid-19 da Rede Vírus do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).
Integrante de uma equipe à frente dos estudos de uma vacina contra a doença, ela defende maior protagonismo das mulheres na ciência. Em abril de 2021, foi uma das sete vencedoras do prêmio “Mulheres brasileiras que fazem a diferença”, concedido pela embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
“Mais mulheres precisam ter voz na academia e precisamos de todos juntos neste momento tão difícil para quem faz ciência e para quem acredita nela”, afirma Ana Paula.
Informações: G1.



