
Poucos alimentos representam tão bem a história, a identidade e a resistência cultural de um povo quanto o brote representa para Vila Pavão. Produzido há décadas pelas famílias de descendentes pomeranos, o tradicional pão de fubá ultrapassou os limites da cozinha rural para se transformar em um dos maiores símbolos culturais do município e um importante gerador de renda para dezenas de famílias.
Considerada uma das maiores produtoras de brote, Vila Pavão construiu uma relação histórica com esse alimento desde a chegada dos imigrantes pomeranos na década de 1940. Muito mais que um alimento, o brote acompanhou toda a trajetória política, econômica e cultural do município.
Durante cerca de cinco décadas, entre os anos de 1940 e 1990, o brote era consumido quase exclusivamente pelas famílias pomeranas da zona rural, especialmente na região do Córrego Grande. Sua produção era simples: utilizava-se fubá moído em moinhos movidos à água, fermento caseiro, inhame, batata-doce, cará ou banana, ingredientes que garantiam a textura macia e o sabor característico do pão.
Na época, o brote fazia parte da alimentação diária das famílias e era levado pelas crianças para a escola como merenda. Entretanto, o alimento também se tornou alvo de preconceito, refletindo a discriminação enfrentada pela comunidade pomerana.
A palavra “brote” deriva do termo pomerano “broud”, aportuguesado ao longo dos anos. Com o tempo, tornou-se o alimento mais emblemático da culinária pomerana de Vila Pavão, superando em reconhecimento outras manifestações culturais como a língua pomerana, os tradicionais vestidos pretos de casamento, as catacumbas transversais, o quebra-louças, o almoço pomerano, a arquitetura típica, as vestimentas tradicionais e a música de concertina.
Da discriminação ao orgulho
Segundo o pesquisador da cultura pomerana Jorge Kuster Jacob, o preconceito marcou a infância de muitos descendentes de pomeranos.
“Como o fubá não podia ser qualquer um, tinha que ser produzido em moinhos tocados à água, pois era mais fino e deixava o brote mais macio e suculento. Lembro que, certa vez, na década de 1980, eu e um vizinho fomos levar milho a um moinho dos Voltz, no Córrego Grande. Ao passarmos por um grupo de jovens, fomos discriminados. Diziam: ‘Os alemães comedores de brote azedo vão buscar fubá’. Era muito triste.”
Ele também recorda que, quando sua mãe preparava o lanche para a escola, o brote era escondido dos colegas.
“Minha mãe colocava duas fatias de brote com manteiga e doce de banana em um embornal. Na hora do recreio, a gente ia comer escondido atrás da escola.”
Hoje, segundo Jorge, a realidade é completamente diferente.
“Nas mesmas estradas onde andávamos a cavalo para levar milho ao moinho, hoje existem placas indicando onde comprar o nosso brote.”

A emancipação cultural
Com a emancipação política de Vila Pavão, na década de 1990, iniciou-se também um processo de valorização da identidade cultural do município. Nesse contexto, o brote passou a despertar a curiosidade da imprensa regional e estadual, além de pesquisadores interessados na cultura pomerana.
A valorização promovida pelo movimento cultural da Pomitafro contribuiu para que os próprios pomeranos passassem a sentir orgulho de suas tradições, antes frequentemente alvo de preconceito.
Desde então, Jorge Kuster Jacob passou a divulgar o brote em todos os espaços onde representava o município. Professor, diretor escolar e posteriormente secretário municipal de Educação e Cultura, fazia questão de apresentar o produto a autoridades, jornalistas e visitantes.
Segundo ele, tornou-se tradição receber visitantes oferecendo brote.
“Quem visita Vila Pavão e não leva um brote para casa é como se não tivesse conhecido a cidade”, resume o pesquisador. O costume também se tornou comum entre os próprios pavoenses, que frequentemente levam brotes como presente quando viajam.
Produto movimenta a economia local

Pesquisa realizada por Jorge Kuster Jacob mostra que a pioneira na comercialização do produto na zona urbana foi Delira Krause Peters, na década de 1990. Posteriormente, outras produtoras passaram a fabricar e vender diferentes versões do alimento, como o brote de fubá (Mijlhabroud), o brote de trigo (Weitbroud) e o brote de banana (Bananabroud).
Atualmente, além de Delira Krause Peters, também comercializam brotes as produtoras Eleni Krause e Normélia Bienow Rastske. O produto pode ser encontrado na rodoviária, na Casa do Produtor, no Mercadinho Vila Horto e em outros pontos identificados por placas com a inscrição “Brote Aqui”.
As padarias Pomerana, Bom Gosto e Prestígio também mantêm a tradição, oferecendo diferentes variedades do produto. Embora utilizem métodos de produção mais modernos, sem forno a lenha e folhas de bananeira, preservam a receita tradicional. A Padaria Prestígio, por exemplo, comercializa versões tradicionais, de banana e até de chocolate.
Cultura que gera renda
O levantamento aponta que aproximadamente 5.600 brotes são comercializados mensalmente apenas na área urbana de Vila Pavão. Considerando um preço médio de R$ 10 por unidade, o produto movimenta cerca de R$ 56 mil por mês, sem contabilizar a venda de bolos, biscoitos, bolachas e outros derivados da culinária pomerana.
Para Jorge Kuster Jacob, o resultado demonstra como a cultura pode ser um instrumento de desenvolvimento.
“Costumamos dizer que a cultura local precisa fortalecer a autoestima da população. O brote faz exatamente isso. Além de preservar nossa identidade, gera emprego, renda e movimenta a economia.”
Já o secretário municipal de Cultura e Turismo, Gil Leandro, destaca que o brote sintetiza a essência da cultura pomerana e representa um dos maiores patrimônios imateriais do município.
“A cultura pomerana está muito viva em nossa cidade, e o brote é muito mais do que um alimento típico. Ele representa a história, a identidade e a tradição de um povo que preserva seus costumes com orgulho.”
O secretário destaca que, além de preservar a memória dos antepassados, o tradicional pão pomerano também exerce papel relevante no desenvolvimento econômico local.
“Além de seu valor cultural, o brote também possui grande importância econômica para Vila Pavão, gerando renda para diversas famílias e fortalecendo o turismo por meio da valorização da nossa gastronomia.”
Gil Leandro reforça que a preservação das tradições deve continuar sendo uma prioridade para que as futuras gerações mantenham viva a herança deixada pelos imigrantes pomeranos.
“Precisamos, cada vez mais, lutar pela preservação da cultura pomerana, apoiando eventos, manifestações culturais, pesquisas e iniciativas que mantêm vivas nossas tradições.”
Patrimônio cultural de Vila Pavão
De alimento simples consumido pelas famílias da zona rural a símbolo reconhecido da cultura pomerana, o brote percorreu uma longa trajetória. O que antes era motivo de discriminação tornou-se motivo de orgulho para os moradores e referência para visitantes.
A história do brote também reflete o papel desempenhado pela Pomitafro como movimento cultural. Ao valorizar as tradições pomerana, italiana e afro-brasileira, o evento fortaleceu a identidade local, estimulou o empreendedorismo, gerou oportunidades econômicas e ajudou a projetar Vila Pavão como uma das principais referências culturais do Espírito Santo.
Hoje, o brote não é apenas um alimento típico. É um patrimônio cultural que preserva a memória de um povo, fortalece a autoestima da comunidade e demonstra como a cultura pode transformar tradição em desenvolvimento econômico e reconhecimento estadual.


