Em 1978, a então renomada Revista Manchete, do Rio de Janeiro, dedicou sua edição nº 1.363 a uma reportagem impactante sobre o pequeno distrito de Vila Pavão, na época pertencente a Nova Venécia. A matéria, assinada pela jornalista Ateneia Feijó, com fotografias de Carlos Humberto, denunciava um drama humano e ambiental que ela batizou de “Câncer Ecológico”.
O termo surgiu após o médico Douglas Poppim, que atendia no Posto de Saúde local, identificar inúmeros casos de câncer de pele entre os moradores da comunidade pomerana. Ateneia percebeu que o problema ia muito além da medicina: tratava-se de um reflexo das duras condições de vida enfrentadas pelos imigrantes europeus adaptados a um clima ameno, agora expostos ao sol intenso, ao desmatamento e à degradação ambiental do norte capixaba.
A repórter retratou, com sensibilidade e indignação, a luta de um povo simples e trabalhador, de raízes culturais profundas, que enfrentava o abandono médico, o empobrecimento do solo e a falta de políticas de apoio à agricultura familiar. O cenário era quase um “filme de terror”, nas palavras da jornalista. A reportagem colocou Vila Pavão e o Espírito Santo em destaque nacional — e até internacional, levando o nome da comunidade à prestigiada revista norte-americana Time.
Mas o impacto da matéria não foi passageiro
Onze anos depois, em 1989, a Manchete voltou a Vila Pavão, acompanhada por grandes veículos como o Jornal do Brasil, A Gazeta e a revista alemã Quick. O cenário havia mudado pouco em termos de atendimento médico, mas a esperança começava a florescer. A Igreja de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), por meio do projeto DENES, passou a investir em agricultura e medicina alternativas, com o apoio da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e de prefeituras locais.
Desse esforço conjunto nasceram iniciativas que transformaram o município. O Centro Integrado de Educação Rural (CIER), por exemplo, formou técnicos agrícolas com visão ambientalista e ajudou a articular a emancipação política e cultural de Vila Pavão. Foi nesse ambiente de efervescência que surgiu a Pomitafro, festa pomerana, italiana e afrodescendentes , que logo se consolidou como um movimento cultural símbolo da identidade local e capixaba.
Hoje, Vila Pavão é reconhecida como um dos municípios mais culturais do Espírito Santo, fruto de décadas de resistência, fé e trabalho coletivo.
O tema voltou à tona recentemente, quando a equipe do Programa de Atendimento Dermatológico (PAD), da Ufes, retornou ao município para mais uma ação de rastreamento e combate ao câncer de pele, trabalho que a universidade desenvolve há mais de 20 anos com apoio da Igreja Luterana, da Prefeitura e de voluntários em 11 municípios capixabas. Durante a passagem pelo município, fiz chegar à equipe uma verdadeira relíquia: um exemplar original da reportagem da Revista Manchete de 1989, símbolo de um capítulo marcante da história pavoense.
Mais de quatro décadas depois, a luta contra o “câncer ecológico” se transformou em exemplo de superação, cuidado e valorização da vida. O que um dia foi denúncia, hoje é memória e força para continuar escrevendo novas páginas da história de Vila Pavão.
Texto: Jorge Kuster Jacob (pesquisador cultural).





