
Resgate da história – No Brasil dos anos 1980, o fim da Ditadura Militar marcava uma nova era. No Espírito Santo, jovens pomeranos de Vila Pavão e outras cidades migravam em busca de educação superior. Ao retornar, traziam uma nova perspectiva sobre sua identidade cultural. Foi nesse contexto que o Grupo Folclórico Pomerano de Vila Pavão surgiu, em 1988, como símbolo de resistência cultural e valorização das raízes pomeranas.

Os municípios de Santa Maria de Jetibá e Vila Pavão foram pioneiros no resgate e valorização da identidade histórica e cultural pomerana. Diversos grupos folclóricos emergiram nesses municípios para iniciar esse processo de conscientização cultural. Em Vila Pavão, o sociólogo Jorge Kuster Jacob retornou em 1987 do Rio Grande do Sul, onde estudara por 12 anos. Sua tese de conclusão, “A Imigração e aspectos da Cultura Pomerana no Espírito Santo”, defendida na Universidade do Rio dos Sinos (UNISINOS) de São Leopoldo, foi pioneira. Ao voltar para Vila Pavão, Jorge aplicou sua pesquisa na história e cultura locais, debatendo a necessidade de fundar um grupo de danças pomeranas.
Em 1987, os jovens Valdecir Berger e Leonira Ramlow foram enviados a Domingos Martins para um curso de danças folclóricas germânicas ministrado por um folclorista de Gramado, RS. A Juventude Evangélica, liderada por Jorge, Valdeci e Leonira, acreditava que “não bastava só cantar e rezar”, era preciso “fazer cultura”. Decidiram então fundar um grupo de danças pomeranas, uma ideia inicialmente rejeitada pela diretoria da igreja, que considerava inadequado dançar na igreja.

A ideia persistiu. Valdemiro Foerster, pai de um dos integrantes, ofereceu o terraço de sua casa no centro da cidade para os ensaios do grupo. Vila Pavão nunca tinha visto um grupo de danças. A diretoria da igreja confundia danças folclóricas com forró ou baile.
Após alguns ensaios, o grupo foi convidado por Jorge Kuster Jacob, então diretor do Centro Integrado de Educação Rural (CIER), para estrear no segundo domingo de maio de 1988, Dia das Mães. Muitas mães e esposos presentes perceberam que as danças nada tinham a ver com “forró” ou “baile”.
Membros da diretoria da igreja reconsideraram e chamaram o grupo de volta, permitindo que os ensaios também ocorressem na igreja e que o grupo a representasse em diversas apresentações pelo Brasil.
Jorge viu na criação do grupo uma oportunidade de implementar sua pesquisa em Vila Pavão, que se tornou o primeiro livro sobre os pomeranos no Brasil. Como diretor do CIER, ele questionava a pertinência das festas caipiras, que satirizavam os agricultores e não contribuíam para seu desenvolvimento. Observando as características dos alunos e ouvindo as famílias, percebeu que a maioria era pomerana, italiana ou africana. A pergunta era: como criar uma festa que representasse esses colonizadores de Vila Pavão (Distrito de Córrego Grande)?
Após reuniões, os professores decidiram criar a Festa POMerana, ITAliana e AFRO, ou seja, POMITAFRO. A primeira Pomitafro ocorreu em 27 de agosto de 1989 na escola do CIER. O grupo de danças pomeranas já existia, mas ainda era necessário formar, mesmo que de forma improvisada, os grupos italianos e afro, que depois se tornaram permanentes. Os grupos passaram a ter um evento anual para aprimorar suas apresentações, vestimentas e história. Em seguida, grupos folclóricos de várias etnias e municípios do Espírito Santo começaram a participar.
Na mesma época, um grupo discutia a emancipação política de Vila Pavão, liderado pelo vereador Antônio Teixeira Maria, que convidou professores do CIER para coordenar. A consciência cultural emergente no município, promovida pelo movimento Pomitafro, contribuiu significativamente para o processo de emancipação política em 1990 e a eleição da primeira administração municipal em 1992.
A Pomitafro expandiu suas formas de valorização da cultura local, regional e estadual. Hoje, o movimento cultural valoriza a língua, vestimenta, dança, música, culinária, arquitetura, folclore, religiosidade, história (museu), educação, pesquisa, literatura, entre outras manifestações culturais desses três povos que colonizaram Vila Pavão.

A cultura pavoense atravessou fronteiras. Em 1997, os dançarinos Edson Foerster e Anita Xavier, em nome do Grupo Folclórico Pomerano, foram à cidade de Espigão do Oeste (RO), fundar um grupo de danças naquela cidade.
Atualmente, a Pomitafro é um importante espaço para debater e celebrar a cultura capixaba. Ela abarca não só as três etnias mencionadas, mas todas as que construíram e constroem a identidade histórica e cultural do diversificado povo capixaba.
Para o sociólogo Jorge Kuster Jacob, os grupos folclóricos permanentes pomeranos, italianos, africanos, e outros são fundamentais para manter festas culturais como a Pomitafro, a Festa Pomerana de Pancas, a de Santa Maria de Jetibá, a Festa do Brote de Laranja da Terra, a Sommerfest de Domingos Martins, e a Festa das Etnias de Itaguaçu. Esses grupos representam, estudam e debatem a identidade histórica e cultural de cada grupo étnico, município e comunidade, tornando-se um verdadeiro movimento cultural.
“É responsabilidade das Secretarias Municipais de Cultura e Turismo promover, nas escolas, nos grupos folclóricos e nas comunidades, ações que fomentem um debate permanente, onde a cultura possa contribuir profundamente para o desenvolvimento cultural e econômico da comunidade, do grupo folclórico, do município, do estado e do país. Esse desenvolvimento deve ser local e sustentável”, opinou.



